A despoluição da Bacia do Rio Tietê e a expansão dos serviços de saneamento na Região Metropolitana de São Paulo entram em uma nova fase, marcada por investimentos previstos de R$ 25 bilhões e pela ampliação da rede de coleta e tratamento de esgoto. O programa da Sabesp pretende acelerar a universalização dos serviços e reduzir o lançamento de poluentes em rios, córregos e ribeirões.
A estratégia combina obras de infraestrutura com uma mudança no modelo de regulação tarifária adotado após a privatização da companhia. Pela regra apresentada no novo formato, os custos de investimentos só podem ser incorporados à base tarifária depois da execução e da entrega das obras.
Regra tarifária condiciona repasse à execução das obras
No modelo anterior, os investimentos planejados podiam entrar antecipadamente na base de cálculo das tarifas. Isso significava que o consumidor poderia pagar por obras ainda não concluídas, sujeitas a atrasos, mudanças de escopo ou cancelamento.
Com a nova regra, o repasse dos custos à tarifa fica condicionado à materialização dos investimentos. Em declaração feita em 3 de setembro, durante debates sobre a privatização da Sabesp, o governador Tarcísio de Freitas afirmou que o mecanismo protege o consumidor contra a cobrança por intervenções não realizadas.
Segundo o governador, essa regra é um dos três fatores que mantêm a tarifa cerca de 15% abaixo do que seria no modelo estatal. Os outros dois seriam a destinação de 30% dos recursos obtidos com a venda da companhia e o direcionamento integral dos dividendos pertencentes ao Estado para um fundo de universalização. O reajuste tarifário mais recente foi de aproximadamente 6%, segundo o material que embasa esta reportagem.
Plano de R$ 25 bilhões busca antecipar universalização
O plano de investimentos da Sabesp concentra-se em obras de esgotamento sanitário na Grande São Paulo. A meta divulgada pela companhia é alcançar a universalização dos serviços no Estado até 2029, quatro anos antes do prazo de 2033 estabelecido pelo Marco Legal do Saneamento.
Na primeira fase do programa, entre 2023 e 2026, foram previstos ou realizados:
- R$ 7,5 bilhões em investimentos;
- execução de 43% do projeto, distribuída em 42 pacotes de obras;
- implantação de 1.032 quilômetros de tubulações;
- construção de 39 Estações Elevatórias de Esgoto (EEEs);
- construção de sete novas Estações de Tratamento de Esgoto (ETEs), com acréscimo de 883 litros por segundo na capacidade de tratamento;
- benefício estimado para 1,2 milhão de domicílios, alcançando mais de 3 milhões de pessoas.
Nova fase concentra obras na Região Oeste
Com todos os lotes do novo pacote contratados, a segunda fase entra em execução em áreas de maior dificuldade geográfica. O ciclo anterior priorizou a ampliação da capacidade de grandes estações de tratamento. Agora, o foco está em regiões com relevo acidentado, terrenos rochosos e travessias sob rodovias de grande movimento, como a Rodovia Raposo Tavares.
A nova etapa prevê atender cerca de 1,75 milhão de pessoas, distribuídas em aproximadamente 650 mil imóveis. Também estão previstas a implantação de 460 quilômetros de redes e a construção de 112 EEEs, com conclusão estimada até 2028.
As estações elevatórias são necessárias em trechos onde a inclinação do terreno impede o escoamento por gravidade. Nesses locais, os equipamentos bombeiam o esgoto até as unidades de tratamento, reduzindo o risco de lançamento direto em rios e córregos.
Obras previstas por município
As obras da nova fase estão distribuídas entre dez municípios da Região Oeste e áreas do entorno. O detalhamento previsto no programa é o seguinte:
| Município | Tubulações (km) | Estações elevatórias / outras obras |
| Caieiras | 13,8 | 12 EEEs |
| Cajamar | 78,3 | 35 EEEs e ampliação da ETE Polvilho |
| Carapicuíba | 34,3 | 5 EEEs |
| Cotia | 107,5 | 15 EEEs |
| Francisco Morato | 6,8 | 9 EEEs |
| Franco da Rocha | 8,0 | 5 EEEs |
| Itapevi | 66,8 | 9 EEEs |
| Jandira | 31,5 | 8 EEEs |
| Osasco | 76,8 | 6 EEEs |
| Santana de Parnaíba | 25,8 | 7 EEEs |
Redução da carga poluidora
O programa atua também sobre córregos e ribeirões que formam a rede de afluentes do Tietê e de outros rios da região. A expectativa é que a interrupção do lançamento de esgoto em bairros e cabeceiras reduza o transporte de matéria orgânica para os cursos d’água principais.
De acordo com os indicadores apresentados no material, a quantidade de poluição transportada pelo Rio Tietê caiu 46 toneladas por dia nos últimos dois anos. O texto também registra melhora em córregos e ribeirões como Tamanduateí, Aricanduva, Jacu, Rio da Pedra, Perová, Três Pontes e Baquirivu-Guaçu.
No Rio Pinheiros, dados registrados desde 2024 apontam redução da concentração de matéria orgânica, medida pelo indicador de Carbono Orgânico Total (COT), em pontos estratégicos:
- Barragem de Pedreira: redução de 55%;
- Ponte do Socorro: redução de 29%;
- Usina São Paulo: redução de 26%.
No novo ciclo, as obras devem alcançar bacias que abrangem 190 bairros e 52 corpos hídricos. O conjunto inclui 32 córregos, 16 ribeirões e quatro rios principais: Cotia, Juqueri, Sapiantã e São João.
Saneamento e impacto social
Além do efeito ambiental, a expansão da rede de esgoto tem impacto direto sobre a saúde pública em comunidades que convivem há anos com a falta de infraestrutura. Na Vila Progresso, em Itaquera, na Zona Leste da capital, cerca de 500 famílias que viviam próximas a trechos de esgoto a céu aberto foram conectadas à rede de coleta.
“Há muito tempo sofríamos com a falta de saneamento. As crianças e os idosos ficavam doentes, e o esgoto atraía ratos, baratas e insetos. Quando a Sabesp chegou, muita gente não acreditou, mas é um sonho que está se realizando. Nossa vez chegou, e isso vai trazer muitas melhorias para toda a comunidade”, afirma Fábio Gonçalves, líder comunitário da Vila Progresso.
Com a combinação entre o novo modelo regulatório e o volume de investimentos anunciado, a Sabesp pretende ampliar a coleta e o tratamento de esgoto, reduzir a carga poluidora na Bacia do Tietê e aproximar o Estado da meta de universalização dos serviços de saneamento.