Mounjaro, Ozempic e Wegovy estão entre os produtos procurados por quadrilhas; participação dos medicamentos nos prejuízos monitorados com roubos de cargas saltou de 2,8% para 19% no primeiro semestre de 2026

Onda de roubos de medicamentos de alto custo coloca farmácias na mira de criminosos

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Onda de roubos de medicamentos de alto custo coloca farmácias na mira de criminosos
Reprodução

Farmácias e distribuidoras de medicamentos passaram a enfrentar uma nova frente de criminalidade no Brasil, impulsionada pela procura por produtos de alto valor comercial. Segundo levantamento da nstech, citado pela Veja, os medicamentos responderam por 19% do valor dos prejuízos provocados por roubos de cargas no país no primeiro semestre de 2026. No mesmo período de 2025, a participação era de 2,8%. Com o avanço, o setor passou da sexta para a terceira posição entre os segmentos mais atingidos.

Os percentuais se referem ao valor financeiro dos prejuízos registrados nas operações monitoradas pelas empresas de gerenciamento de risco que integram o levantamento. Portanto, não representam necessariamente a proporção de todas as ocorrências de roubo de cargas registradas no país.

Entre os produtos que despertam o interesse das quadrilhas estão as chamadas canetas emagrecedoras, como Mounjaro, Ozempic e Wegovy. Parte dos medicamentos roubados pode ser destinada ao mercado clandestino e revendida pela internet ou por estabelecimentos que atuam de forma irregular. O levantamento aponta ainda que o Sudeste concentrou 77,2% dos prejuízos financeiros com roubos de cargas no primeiro semestre de 2026, contra 60,5% no mesmo período do ano anterior. Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais responderam, respectivamente, por 36,6%, 30,9% e 9,3% das perdas.

O problema também chegou diretamente às farmácias. Na cidade de São Paulo, a Secretaria da Segurança Pública registrou 162 roubos e furtos em drogarias nos cinco primeiros meses de 2026, contra 166 no mesmo período de 2025. Isso corresponde a uma média superior a uma ocorrência por dia. O número se refere à capital paulista, e não ao estado ou à Grande São Paulo.

Embora o total tenha ficado próximo ao do ano anterior, reportagens e investigações policiais indicam uma mudança qualitativa no perfil dos crimes, com casos em que os criminosos demonstraram interesse específico pelas canetas emagrecedoras. Essa mudança é descrita em relatos de investigação, mas não equivale a uma série estatística oficial que detalhe todas as ocorrências por tipo de medicamento. A Polícia Civil também identificou casos de receptação e revenda dos produtos por redes sociais e por estabelecimentos que atuavam clandestinamente.

Um dos casos relatados pela Folha de S.Paulo envolveu o roubo de 20 caixas de Wegovy em uma unidade da Drogaria São Paulo, na capital paulista. A ação terminou com a morte de um cliente que entrou no estabelecimento sem saber do assalto e foi confundido com um segurança. Em outro episódio, também em São Paulo, uma tentativa de roubo de canetas emagrecedoras terminou em troca de tiros com a Polícia Militar; um suspeito morreu no local e outro foi preso. Nesse segundo caso, a morte foi registrada como decorrente de intervenção policial. Diante da sequência de ataques, estabelecimentos passaram a reforçar a segurança com vigilantes.

Em Salvador, a Operação Dose Final, deflagrada em junho, levou inicialmente à prisão de 17 investigados: 16 em Salvador e um em São Paulo. Ainda no mesmo dia, um novo mandado elevou o total para 18 presos. Segundo a Polícia Civil da Bahia, o grupo era investigado por uma série de roubos violentos em farmácias e redes farmacêuticas, com foco em medicamentos de alto valor, principalmente Mounjaro, Ozempic e Wegovy. A Justiça determinou ainda o bloqueio de R$ 12,5 milhões em bens e valores relacionados aos investigados.

Além do prejuízo financeiro, os roubos representam um problema sanitário. A Anvisa mantém registros de roubos, furtos e extravios de cargas e alerta que, depois de furtados, roubados ou extraviados, os medicamentos deixam de ter asseguradas as condições adequadas de transporte e armazenamento. A população deve adquirir medicamentos apenas de estabelecimentos autorizados e de procedência conhecida.

O avanço do mercado ilegal das canetas também levou a Anvisa e a Polícia Federal a intensificarem as operações contra produtos irregulares. Em 7 de abril de 2026, a Operação Heavy Pen realizou ações em 12 estados, com 45 mandados de busca e apreensão e 24 fiscalizações. A operação identificou R$ 4,8 milhões em possíveis transações irregulares registradas em notas fiscais e apreendeu cerca de 3,5 quilos de tirzepatida, quantidade estimada como suficiente para a produção de mais de 1 milhão de dispositivos injetáveis. A expressão “possíveis transações irregulares” é mais precisa do que afirmar que toda a quantia corresponde a movimentação financeira criminosa comprovada.

A Anvisa afirma que medicamentos injetáveis irregulares podem apresentar problemas de composição, pureza, qualidade, esterilidade, conservação e rastreabilidade. As canetas sem registro ou de origem desconhecida também podem conter dose incerta, estar contaminadas, ter sido adulteradas ou perder a eficácia.

O cenário mostra que o crime envolvendo medicamentos deixou de estar restrito ao roubo convencional de cargas. Produtos de alto custo e grande procura passaram a alimentar uma cadeia clandestina que envolve roubos, receptação e venda irregular, aumentando a pressão sobre farmácias, distribuidoras, trabalhadores e consumidores. Os dados disponíveis sustentam essa tendência, mas devem ser interpretados considerando o escopo das bases estatísticas e as diferenças entre ocorrências oficialmente registradas, investigações policiais e prejuízos financeiros monitorados.

Fontes

•nstech — Report de Roubo de Cargas, 1º semestre de 2026

•Veja — O estado que lidera o roubo de medicamentos no Brasil

•Folha de S.Paulo — Farmácias reforçam segurança após mortes em assaltos por canetas emagrecedoras em SP

•G1 — Tentativa de roubo a farmácia termina com suspeito morto após troca de tiros•Polícia Civil da Bahia — Operação Dose Final

•Polícia Civil da Bahia — Operação Dose Final totaliza 18 investigados

•Anvisa — Operação Heavy Pen

•Anvisa — Roubos, furtos e extravios